Trecho do livro Fedro. Platão.
Além disso, entre os amantes, muitos não cuidam primeiro de conhecer o carácter do amado, deixando-se possuir, logo de início pelo o amor de concupiscência, sem atender as codições particulares; por conseguinte, não podem estar certos que continuarão a manter despois de atingidos os fins, ou de satisfeito o desejo.
Por outro lado ainda, ao cederes, deves procurar tornar-te ainda mais virtuoso do que se cedesse a um outro possuído de paixão, porque, esses que estão possuídos pela paixão, vão ao ponto de elogiar todas as palavras e todos os atos do amado, mesmo que isso vá contra todas as verdade das coisas, em parte porque receiam tornar-te indiferentes, em parte também porque o desejo acaba sempre por adulterar a lucidez e o juizo.
O desejo que, desprovido de razão, atrofia a alma e esmaga o prazer do bem, e se dirige exclusivamente para os desejos próprios da sua natureza, cujo o único objetivo é a beleza corporal, quando se lança impudicamente sobre ela, comporta-se de tal maneira que se torna irresistível, e é dessa irresistibilidade, dessa força destemperada, que ele recebe a denominação de Eros, ou de Amor.
Eis, meu caro, o que se torna necessário ter presente: saber que as boas intenções de um apaixonado, não tem por base a amizade, mas que, tal como o apetite de comer, nascem da necessidade de o satisfazer. A ternura de um lobo por um cordeiro, eis a imagem exata do amor que os apaixonados sentem pelo jovem amado.
Pois a visão é de fato o mais subtil dos nossos sentidos, embora não possa aperceber-se da sabedoria.
Diversamente, tendo-se entregue ao prazer, precede como um quadrúpede, entrega-se ai prazer sensual e a procriação dos filhos e, uma vez familiarizado com a intemperança, deixa de ter medo de ser entregar a todos os prazeres, incluindo aqueles que são contra a natureza.
E é mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante.
Ao contrário, o amante do carácter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário